sábado, 28 de novembro de 2015
LINHAS DE ENSINO: VISÃO GERAL
LINHAS DE ENSINO
Construtivismo / Estruturalismo de Piaget
Principais Características:
Toda criança tem um mecanismo natural de aprendizagem e adquire certas noções na própria interação com o meio em que está inserida. Neste método, as atividades são propostas de acordo com os interesses dos alunos.
Bases históricas
As bases do método estão nas ideias do filósofo Jean Piaget (1896-1980), segundo quem as crianças compreendem espontaneamente o mundo através da assimilação e da acomodação deformando a realidade a fim de entendê-la.
Construtivismo/Pós-piagentiano
Principais Características:
Enfatiza a influência da experimentação no aprendizado: pesquisas, estímulo à dúvida e desenvolvimento do raciocínio. O aluno participa ativamente da “construção” de seu conhecimento, mas o papel do professor na transmissão da informação não é deixado de lado.
Bases históricas
O método vem sendo desenvolvido até hoje, mas suas bases recaem sobre os estudo da argentina Emília Ferreiro (ex colaboradora de Jean Piaget).
Montessori
Principais Características:
Os princípios fundamentais são: atividade, individualidade e liberdade. O professor é um observador, um guia para que a criança se auto eduque. A criança escolhe o material a ser utilizado, mas as opções já foram pré-estabelecidas pelo professor. Utiliza cinco materiais básicos : Exercícios para a Vida Cotidiana, Material Sensorial, Material de Linguagem, Material de Matemática e Material de Ciências.
Bases históricas
O método montessoriano foi desenvolvido pela acadêmica italiana Maria Montessori (1870-1952) no início do século 20.
Pragmatismo
Principais Características:
A inteligência é um instrumento da aprendizagem, portanto o método privilegia a prática, ao contrário do método tradicional.
Bases históricas
O Pragmatismo é uma escola filosófica e a corrente pedagógica foi criada pelo norte-americano John Dewey (1859-1952).
Pedagogia da Libertação
Principais Características:
Educação voltada para discussão dos temas sociais e políticos do País e do mundo, na qual é eliminada a relação de autoridade entre professor e aluno.
Bases históricas
As origens do método estão na educação popular dos anos 1950 e a base pedagógica está nas teorias de Paulo Freire (1921-1997).
Pedagogia Renovada
Principais Características:
O centro da sala de aula não é o professor nem o conteúdo, e sim o aluno. A aprendizagem se dá pela descoberta das crianças, por meio da experiência, a partir de seu próprio interesse por cada assunto.
Bases históricas
O método baseia-se no movimento Escola Nova, da década de 1930, que defendia a universalização da escola pública, laica e gratuita.
Tradicional
Principais Características:
Predominância de aulas expositivas, em que a função do professor é a principal dentro da sala - sua postura é autoritária. O aluno deve assimilar o conteúdo por meio das aulas e exercícios.
Bases históricas
Modelo instituído pelo Iluminismo francês no século 18.
Waldorf
Principais Características:
Os alunos são divididos em faixas etárias, e não em séries ( as crianças dos 7 aos 14 anos estudam juntas). O método utiliza muitas atividades artísticas, além de artesanato. O pensamento puramente abstrato é inserido apenas durante o ensino médio.
Bases históricas
A pedagogia Waldorf baseia-se na antroposofia, corrente filosófica desenvolvida por Rudolf Steiner (1861-1925), segundo o qual o ser humano é constituído por três elementos: corpo, alma e espírito. Além da educação, a antroposofia também tem correntes na medicina e na agricultura.


terça-feira, 17 de novembro de 2015
ENTRE BOMBAS E BARRAGENS
O mundo recebe com pesar a notícia sobre o atentado de Paris. O Brasil recebe com dor a informação de que o rompimento da barragem da Samarco não foi um acidente.
A população civil brasileira sofre, adere, ajuda, propõe sistema de ajuda às vítimas de Mariana e se solidariza com a Cidade Luz.
Para muitos, a dor por Mariana proibia palavras de repúdio aos atentados de Paris.
Estamos tentando entender este mundo. São dois fatos distintos que merecem a reflexão sobre a natureza de cada um deles. Um acidente foi reflexo da falta de planejamento, não havia intenção para a tragédia mineira... já em Paris, o planejado, cumpriu-se!
Uma dor não isola a outra. Antes do patriotismo, somos seres humanos. E será como tal que nos compactuamos com este momento.
Em relação à Samarco, o Rio Doce que banha MG e o ES, já tem espécies em extinção. Notícias afirmam que levará décadas para que o rastro do que houve com Mariana possa ser desaparecer.
O jovem prefeito da cidade afirma que mais de 80% da população depende da mineração. O mercúrio será, aos poucos, absorvido pelas árvores e estas, uma vez frutíferas, não poderão matar a fome da comunidade que vive em seu entorno.
O governo federal, estipulou uma multa no valor de R$ 250 milhões que não será repassada à Mariana. Isso basta?
Vivemos um momento em que os valores apregoados pela democracia estão esfarelados. As bombas de Paris, atentaram contra os princípios da liberdade ocidental. Atentaram contra as conquistas e instauraram o medo. O primeiro atentado, para quem lembra, foi contra a liberdade de expressão.
Que possamos ver, não o distanciamento entre Paris/Mariana, mas aproximações cujas dores têm pontos comuns.
quarta-feira, 21 de outubro de 2015
domingo, 11 de outubro de 2015
SOBRE A IMPORTÂNCIA DA PESQUISA NOS CURSOS DE GRADUAÇÃO
No atual cenário educacional brasileiro, temos acompanhado uma fragilidade no que tange a pesquisa.
Muitos de nossos alunos adentram o Ensino Superior com grandes defasagens em interpretação textual e principalmente em esboçar o seu senso crítico, seja em âmbito verbal ou escrito.
A disciplina de Metodologia Científica, visa, dentre outros aspectos, colaborar para que o saber acumulado seja sistematizado.
O professor orientador precisa transitar por caminhos que o aluno também conheça. Os recursos pedagógicos devem ser aliados na busca por mais e maiores informações, tornando-se assim um desafio para o aprendizado e para o enriquecimento em sala da aula, e para além dela.
O ensino não pode vir dissociado de pesquisa e vice-versa.
A referida disciplina propedêutica está na maioria das vezes atrelada a elaboração TCC (Trabalho de Conclusão de Curso). Em minhas aulas, costumo enfatizar que este pensamento trai o aluno. Pois,
as técnicas de estudo e leitura, os modos de análise, pensamento e escrita compatíveis com o rigor científico, as técnicas de produção de conhecimento válido, as normas de elaboração de resenhas, são para toda a vida acadêmica e extra-muros universitários.
A monografia, cumpre um papel, mas é apenas um dos créditos a serem cumpridos.
Sabemos que a formação acadêmica não se limita ao cotidiano da sala de aula. Assistir às aulas, fazer os trabalhos e sair-se bem nas avaliações está longe de ser o suficiente. Ao longo dos cursos de graduação o acadêmico deve preocupar-se com o contínuo enriquecimento de sua formação, participando de eventos científicos, fazendo estágios, lendo obras de interesse, participando de grupos de pesquisa e publicando artigos em revistas especializadas com o apoio dos professores orientadores.
Defendo a premissa de que qualquer estudante pode participar de experiências científicas. O saber discente, consolidado qualitativamente exige formação científica constante.
Vemos que muitas disciplinas ministradas nas escolas e faculdades de nosso país são desvinculadas da realidade, vejam o exemplo de Biologia, Física e Química. Muitas escolas e centros acadêmicos não contam com laboratórios, fato que distancia o aluno do objeto do conhecimento.
Tenho duas pesquisas na área Educacional que comprovam que o hábito de leitura ainda é pouco comum entre os estudantes. Sabemos que a leitura assídua aumenta a capacidade de redigir e aguça a criticidade.
E quando o assunto é a ABNT ((Associação Brasileira de Normas Técnicas)? Neste caso, muitos estudantes simplesmente sentem aversão pelo tema.
Isso tende a agravar a situação com os constantes trabalhos CtrlV+CtrlC... a falta de leitura e a pouca habilidade com a escrita, levam o nosso aluno a cometer abusos acadêmicos e total falta de ética. Fazer referências, citar, dialogar com o autor, mesmo que discordando, são atitudes acadêmicas que devem acompanhar toda a vida do estudante, seja ele universitário ou não. Pois redigir cientificamente é articular saberes. Nenhum aluno é uma tábula rasa e nenhum professor domina todas as teorias.
O professor orientador deve ser o articulador que tecerá orientações de caráter metodológicos e incentivará o aluno a expor o seu ponto de vista criticamente.
Noutro artigo, abordo a indissociabilidade entre ensino e pesquisa. A estreita relação entre uma e outra pode ser feita na Universidade (também).
Que fique a reflexão sobre a divulgação de saberes. Pois, o conhecimento represado em nada colabora.Este só tem utilidade para a humanidade, se compartilhado.
as técnicas de estudo e leitura, os modos de análise, pensamento e escrita compatíveis com o rigor científico, as técnicas de produção de conhecimento válido, as normas de elaboração de resenhas, são para toda a vida acadêmica e extra-muros universitários.
A monografia, cumpre um papel, mas é apenas um dos créditos a serem cumpridos.
Sabemos que a formação acadêmica não se limita ao cotidiano da sala de aula. Assistir às aulas, fazer os trabalhos e sair-se bem nas avaliações está longe de ser o suficiente. Ao longo dos cursos de graduação o acadêmico deve preocupar-se com o contínuo enriquecimento de sua formação, participando de eventos científicos, fazendo estágios, lendo obras de interesse, participando de grupos de pesquisa e publicando artigos em revistas especializadas com o apoio dos professores orientadores.
Defendo a premissa de que qualquer estudante pode participar de experiências científicas. O saber discente, consolidado qualitativamente exige formação científica constante.
Vemos que muitas disciplinas ministradas nas escolas e faculdades de nosso país são desvinculadas da realidade, vejam o exemplo de Biologia, Física e Química. Muitas escolas e centros acadêmicos não contam com laboratórios, fato que distancia o aluno do objeto do conhecimento.
Tenho duas pesquisas na área Educacional que comprovam que o hábito de leitura ainda é pouco comum entre os estudantes. Sabemos que a leitura assídua aumenta a capacidade de redigir e aguça a criticidade.
E quando o assunto é a ABNT ((Associação Brasileira de Normas Técnicas)? Neste caso, muitos estudantes simplesmente sentem aversão pelo tema.
Isso tende a agravar a situação com os constantes trabalhos CtrlV+CtrlC... a falta de leitura e a pouca habilidade com a escrita, levam o nosso aluno a cometer abusos acadêmicos e total falta de ética. Fazer referências, citar, dialogar com o autor, mesmo que discordando, são atitudes acadêmicas que devem acompanhar toda a vida do estudante, seja ele universitário ou não. Pois redigir cientificamente é articular saberes. Nenhum aluno é uma tábula rasa e nenhum professor domina todas as teorias.
O professor orientador deve ser o articulador que tecerá orientações de caráter metodológicos e incentivará o aluno a expor o seu ponto de vista criticamente.
Noutro artigo, abordo a indissociabilidade entre ensino e pesquisa. A estreita relação entre uma e outra pode ser feita na Universidade (também).
Que fique a reflexão sobre a divulgação de saberes. Pois, o conhecimento represado em nada colabora.Este só tem utilidade para a humanidade, se compartilhado.
Referências:
RUIZ, Álvaro João. Metodologia científica: guia para eficiência nos estudos. 6ª.ed. São Paulo: Atlas, 2009.
terça-feira, 29 de setembro de 2015
DIA BRANCO
Dia Branco
(Geraldo Azevedo/Renato Rocha)
Se você vier
Pro que der e vier
Comigo...
Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva...
Se a chuva cair
Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar...
Nesse dia branco
Se branco ele for
Esse tanto
Esse canto de amor
Oh! oh! oh...
Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo
Se você vier
Pro que der e vier
Comigo...
Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva...
Se a chuva cair
Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar...
E nesse dia branco
Se branco ele for
Esse canto
Esse tão grande amor
Grande amor...
Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo
Comigo, comigo.
Pro que der e vier
Comigo...
Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva...
Se a chuva cair
Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar...
Nesse dia branco
Se branco ele for
Esse tanto
Esse canto de amor
Oh! oh! oh...
Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo
Se você vier
Pro que der e vier
Comigo...
Eu lhe prometo o sol
Se hoje o sol sair
Ou a chuva...
Se a chuva cair
Se você vier
Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar...
E nesse dia branco
Se branco ele for
Esse canto
Esse tão grande amor
Grande amor...
Se você quiser e vier
Pro que der e vier
Comigo
Comigo, comigo.
A construção do sentido, ou seja, a elaboração de uma estrutura de significados que, entrelaçados, conferem à letra um valor lírico e uma “mensagem poética”, passa pela organização dos planos sintático, semântico e fonético, com a influência, é claro, dos elementos morfológicos elegidos pelos autores. Comento, a partir daqui, o plano sintático e o semântico, cuja importância para uma leitura mais minuciosa da letra é grande.
No plano sintático, percebe-se uma desestruturação significativa na dupla presença de orações subordinadas adverbiais condicionais “se você vier” e “se hoje o sol sair” vinculadas à oração principal “eu lhe prometo o sol”, o que cria uma incompatibilidade semântica. O que quer dizer isso? Que, ao mesmo tempo em que se constrói uma promessa calcada numa condição dependente de uma outra pessoa (se você vier, eu lhe prometo o sol) se processa uma desconstrução do valor semântico dessa promessa, remetendo-a para uma terceira, no caso, o próprio sol. Assim, prometer o sol “se hoje o sol sair” diminui o poder de realização da promessa ou condiciona sua realização aos desígnios solares. Também o trecho “esse tanto esse canto de amor” revela o caos sintático ao se situar, aparentemente, de forma solta no corpo do poema. A que oração pertencem esses termos? A leitura de um hipérbato, por exemplo, em que se reorganizaria a ordem do trecho final, justificaria a compreensão de uma estrutura possível: “se você quiser esse tanto, esse canto de amor e vier pro que der e vier comigo”. É possível, contudo, uma leitura diferente, que una “Se esse tanto, esse canto de amor branco ele for”, o que mostra o uso do hipérbato como forma de criar uma ambiguidade. O uso do plano sintático como forma de gerar ambiguidade é um dos fatores que agregam valor poético à letra.
Também a desorganização causada pela ausência de pontuação é indício da predominância da desestruturação de sentido própria, inclusive, de produções líricas modernas e pós-modernas. Um poema anterior ao século XX poderia ser lido como um texto coeso, sintaticamente articulado. A partir da Modernidade, como sabemos, recursos inventivos extraíram do poema a “obrigatoriedade” de coesão sintática e de coerência semântica. A pontuação, ou melhor, a ausência de pontuação foi e é, nesse âmbito, um dos recursos mais utilizados.
No plano semântico, incongruências como “Eu lhe prometo o sol se hoje o sol sair” “ou a chuva se a chuva cair”, remetendo o valor semântico de “promessa” ao esvaziamento, porque tudo se promete de forma condicional; a gradação “numa praça na beira do mar num pedaço de qualquer lugar”, sugerindo a ampliação e indefinição do espaço (“onde”) em que se viveria o amor; ou, ainda, “nesse dia branco se branco ele for”, destacando a suspensão da adjetivação inicial (“branco” “se branco for”), promovem a desarticulação da relação sêmica entre “intenção” e “condição”, signos básicos que encontrei na estrutura do texto. Explicando melhor, no plano semântico percebe-se que dois fatores sustentam a vivência amorosa que se propõe: um é a intenção de viver o amor, outro é a condição ou as condições em que ele será vivido.
Como comentei acima, em termos de articulação sêmica, ou seja, na relação entre significados estruturais do poema, pode-se perceber a presença redundante de trechos que sugerem uma condição ¾ “se você vier”, “pro que der e vier” (condição implícita), “se hoje o sol sair”, “se a chuva cair”, “se branco ele for” ¾ e outros que traduzem uma intenção ¾ “eu te prometo”, “até onde a gente chegar”, “comigo”. A condição, inserida no âmbito do subjuntivo e relacionada à terceira pessoa (você, sol, chuva, branco), constitui um plano de possibilidades. Já a intenção, relacionada a uma primeira pessoa (“eu”) que se manifesta no tempo presente, indica um plano de disponibilidade. A expressão “canto de amor”, ambígua por poder se referir a espaço físico ou a sentimento, define o ponto em que os dois planos se cruzam ou poderiam se cruzar, ou seja, “se você quiser”, indicando um movimento possível do “outro” em direção ao “eu” sugere a idéia de que o canto de amor solicita uma experiência compartilhada.
Uma leitura inicial relaciona as condições, como se viu, à terceira pessoa. Também o movimento de ir ao encontro do outro parece estar vinculado ao desejo, ou seja, à transformação de uma condição em uma ação (“se”/”vier”). Contudo, visto ser a condição implícita “pro que der e vier comigo” uma colocação ditada pelo sujeito da enunciação (o ser que assume a voz do poema é que propõe ao outro uma condição), pode-se também recolher o registro de uma ação pressuposta desse “eu”, que se revela disposto (intenção) a agir (“até onde a gente chegar”) desde que a condição se cumpra (“se você vier”). Logo, o “pro que der e vier” acaba se fazendo uma condição decisiva para a consolidação de uma relação amorosa que, nesse caso, deverá ser ditada pela total aceitação de quaisquer outras condições impostas pela exterioridade (“se hoje o sol sair”, “se a chuva cair”, “se branco ele for”), daí a decorrente inutilidade de qualquer “promessa”.
O título da canção (“Dia branco”) reúne os dois campos semânticos. “Dia” é o espaço concreto do presente (“hoje”) e “branco” o referente da potência significativa aberta de um “dia” não delimitado por um adjetivo específico como seria o caso de “ensolarado” ou “chuvoso”. O “dia branco”, por isso, ratifica a mensagem implícita de que o amor a ser vivido deve estar aberto e ser resistente a qualquer condição que se imponha, inclusive a condição de o dia não ser branco.
A canção propõe um “canto de amor” que só se constituirá como tal “se” o outro “vier pro que der e vier”. Intenção e condição, portanto, se integradas, concretizarão a experiência amorosa. No entanto, a permanência do “se” no campo das possibilidades, não define a inscrição desse amor no plano da realização, ficando a disponibilidade da voz que ama sob suspensão. A subjetividade, portanto, não se realiza a partir de si, mas se torna dependente do outro, cuja predisposição não aparece definida no poema, remetendo o sentido da relação sêmica condição/disposição para o âmbito da hipótese.
“Dia branco”, assim, pode ser lido como uma metáfora do amor incondicional, que, todavia (e paradoxalmente), se sustenta numa condição, o “pro que der e vier”. Como uma carta de intenções amorosas, o “dia branco” só possui um texto: o “pro que der vier” e uma assinatura: “comigo”. A partir daí, a predisposição para o amor se abre a qualquer possibilidade. Todavia, a presença marcante do “se” indica haver a necessidade de uma resposta. Qual virá? Ou a resposta é essa que nós damos quando ouvimos a canção e com ela nos emocionamos, assinando também essa “carta de intenções” e deixando ver que, no imaginário coletivo, o amor carrega consigo, de fato, um vivo desejo de cumplicidade e eternidade?
No plano sintático, percebe-se uma desestruturação significativa na dupla presença de orações subordinadas adverbiais condicionais “se você vier” e “se hoje o sol sair” vinculadas à oração principal “eu lhe prometo o sol”, o que cria uma incompatibilidade semântica. O que quer dizer isso? Que, ao mesmo tempo em que se constrói uma promessa calcada numa condição dependente de uma outra pessoa (se você vier, eu lhe prometo o sol) se processa uma desconstrução do valor semântico dessa promessa, remetendo-a para uma terceira, no caso, o próprio sol. Assim, prometer o sol “se hoje o sol sair” diminui o poder de realização da promessa ou condiciona sua realização aos desígnios solares. Também o trecho “esse tanto esse canto de amor” revela o caos sintático ao se situar, aparentemente, de forma solta no corpo do poema. A que oração pertencem esses termos? A leitura de um hipérbato, por exemplo, em que se reorganizaria a ordem do trecho final, justificaria a compreensão de uma estrutura possível: “se você quiser esse tanto, esse canto de amor e vier pro que der e vier comigo”. É possível, contudo, uma leitura diferente, que una “Se esse tanto, esse canto de amor branco ele for”, o que mostra o uso do hipérbato como forma de criar uma ambiguidade. O uso do plano sintático como forma de gerar ambiguidade é um dos fatores que agregam valor poético à letra.
Também a desorganização causada pela ausência de pontuação é indício da predominância da desestruturação de sentido própria, inclusive, de produções líricas modernas e pós-modernas. Um poema anterior ao século XX poderia ser lido como um texto coeso, sintaticamente articulado. A partir da Modernidade, como sabemos, recursos inventivos extraíram do poema a “obrigatoriedade” de coesão sintática e de coerência semântica. A pontuação, ou melhor, a ausência de pontuação foi e é, nesse âmbito, um dos recursos mais utilizados.
No plano semântico, incongruências como “Eu lhe prometo o sol se hoje o sol sair” “ou a chuva se a chuva cair”, remetendo o valor semântico de “promessa” ao esvaziamento, porque tudo se promete de forma condicional; a gradação “numa praça na beira do mar num pedaço de qualquer lugar”, sugerindo a ampliação e indefinição do espaço (“onde”) em que se viveria o amor; ou, ainda, “nesse dia branco se branco ele for”, destacando a suspensão da adjetivação inicial (“branco” “se branco for”), promovem a desarticulação da relação sêmica entre “intenção” e “condição”, signos básicos que encontrei na estrutura do texto. Explicando melhor, no plano semântico percebe-se que dois fatores sustentam a vivência amorosa que se propõe: um é a intenção de viver o amor, outro é a condição ou as condições em que ele será vivido.
Como comentei acima, em termos de articulação sêmica, ou seja, na relação entre significados estruturais do poema, pode-se perceber a presença redundante de trechos que sugerem uma condição ¾ “se você vier”, “pro que der e vier” (condição implícita), “se hoje o sol sair”, “se a chuva cair”, “se branco ele for” ¾ e outros que traduzem uma intenção ¾ “eu te prometo”, “até onde a gente chegar”, “comigo”. A condição, inserida no âmbito do subjuntivo e relacionada à terceira pessoa (você, sol, chuva, branco), constitui um plano de possibilidades. Já a intenção, relacionada a uma primeira pessoa (“eu”) que se manifesta no tempo presente, indica um plano de disponibilidade. A expressão “canto de amor”, ambígua por poder se referir a espaço físico ou a sentimento, define o ponto em que os dois planos se cruzam ou poderiam se cruzar, ou seja, “se você quiser”, indicando um movimento possível do “outro” em direção ao “eu” sugere a idéia de que o canto de amor solicita uma experiência compartilhada.
Uma leitura inicial relaciona as condições, como se viu, à terceira pessoa. Também o movimento de ir ao encontro do outro parece estar vinculado ao desejo, ou seja, à transformação de uma condição em uma ação (“se”/”vier”). Contudo, visto ser a condição implícita “pro que der e vier comigo” uma colocação ditada pelo sujeito da enunciação (o ser que assume a voz do poema é que propõe ao outro uma condição), pode-se também recolher o registro de uma ação pressuposta desse “eu”, que se revela disposto (intenção) a agir (“até onde a gente chegar”) desde que a condição se cumpra (“se você vier”). Logo, o “pro que der e vier” acaba se fazendo uma condição decisiva para a consolidação de uma relação amorosa que, nesse caso, deverá ser ditada pela total aceitação de quaisquer outras condições impostas pela exterioridade (“se hoje o sol sair”, “se a chuva cair”, “se branco ele for”), daí a decorrente inutilidade de qualquer “promessa”.
O título da canção (“Dia branco”) reúne os dois campos semânticos. “Dia” é o espaço concreto do presente (“hoje”) e “branco” o referente da potência significativa aberta de um “dia” não delimitado por um adjetivo específico como seria o caso de “ensolarado” ou “chuvoso”. O “dia branco”, por isso, ratifica a mensagem implícita de que o amor a ser vivido deve estar aberto e ser resistente a qualquer condição que se imponha, inclusive a condição de o dia não ser branco.
A canção propõe um “canto de amor” que só se constituirá como tal “se” o outro “vier pro que der e vier”. Intenção e condição, portanto, se integradas, concretizarão a experiência amorosa. No entanto, a permanência do “se” no campo das possibilidades, não define a inscrição desse amor no plano da realização, ficando a disponibilidade da voz que ama sob suspensão. A subjetividade, portanto, não se realiza a partir de si, mas se torna dependente do outro, cuja predisposição não aparece definida no poema, remetendo o sentido da relação sêmica condição/disposição para o âmbito da hipótese.
“Dia branco”, assim, pode ser lido como uma metáfora do amor incondicional, que, todavia (e paradoxalmente), se sustenta numa condição, o “pro que der e vier”. Como uma carta de intenções amorosas, o “dia branco” só possui um texto: o “pro que der vier” e uma assinatura: “comigo”. A partir daí, a predisposição para o amor se abre a qualquer possibilidade. Todavia, a presença marcante do “se” indica haver a necessidade de uma resposta. Qual virá? Ou a resposta é essa que nós damos quando ouvimos a canção e com ela nos emocionamos, assinando também essa “carta de intenções” e deixando ver que, no imaginário coletivo, o amor carrega consigo, de fato, um vivo desejo de cumplicidade e eternidade?
(Christina Ramalho),
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
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