A construção do sentido, ou seja, a elaboração de uma estrutura de significados que, entrelaçados, conferem à letra um valor lírico e uma “mensagem poética”, passa pela organização dos planos sintático, semântico e fonético, com a influência, é claro, dos elementos morfológicos elegidos pelos autores. Comento, a partir daqui, o plano sintático e o semântico, cuja importância para uma leitura mais minuciosa da letra é grande.
No plano sintático, percebe-se uma desestruturação significativa na dupla presença de orações subordinadas adverbiais condicionais “se você vier” e “se hoje o sol sair” vinculadas à oração principal “eu lhe prometo o sol”, o que cria uma incompatibilidade semântica. O que quer dizer isso? Que, ao mesmo tempo em que se constrói uma promessa calcada numa condição dependente de uma outra pessoa (se você vier, eu lhe prometo o sol) se processa uma desconstrução do valor semântico dessa promessa, remetendo-a para uma terceira, no caso, o próprio sol. Assim, prometer o sol “se hoje o sol sair” diminui o poder de realização da promessa ou condiciona sua realização aos desígnios solares. Também o trecho “esse tanto esse canto de amor” revela o caos sintático ao se situar, aparentemente, de forma solta no corpo do poema. A que oração pertencem esses termos? A leitura de um hipérbato, por exemplo, em que se reorganizaria a ordem do trecho final, justificaria a compreensão de uma estrutura possível: “se você quiser esse tanto, esse canto de amor e vier pro que der e vier comigo”. É possível, contudo, uma leitura diferente, que una “Se esse tanto, esse canto de amor branco ele for”, o que mostra o uso do hipérbato como forma de criar uma ambiguidade. O uso do plano sintático como forma de gerar ambiguidade é um dos fatores que agregam valor poético à letra.
Também a desorganização causada pela ausência de pontuação é indício da predominância da desestruturação de sentido própria, inclusive, de produções líricas modernas e pós-modernas. Um poema anterior ao século XX poderia ser lido como um texto coeso, sintaticamente articulado. A partir da Modernidade, como sabemos, recursos inventivos extraíram do poema a “obrigatoriedade” de coesão sintática e de coerência semântica. A pontuação, ou melhor, a ausência de pontuação foi e é, nesse âmbito, um dos recursos mais utilizados.
No plano semântico, incongruências como “Eu lhe prometo o sol se hoje o sol sair” “ou a chuva se a chuva cair”, remetendo o valor semântico de “promessa” ao esvaziamento, porque tudo se promete de forma condicional; a gradação “numa praça na beira do mar num pedaço de qualquer lugar”, sugerindo a ampliação e indefinição do espaço (“onde”) em que se viveria o amor; ou, ainda, “nesse dia branco se branco ele for”, destacando a suspensão da adjetivação inicial (“branco” “se branco for”), promovem a desarticulação da relação sêmica entre “intenção” e “condição”, signos básicos que encontrei na estrutura do texto. Explicando melhor, no plano semântico percebe-se que dois fatores sustentam a vivência amorosa que se propõe: um é a intenção de viver o amor, outro é a condição ou as condições em que ele será vivido.
Como comentei acima, em termos de articulação sêmica, ou seja, na relação entre significados estruturais do poema, pode-se perceber a presença redundante de trechos que sugerem uma condição ¾ “se você vier”, “pro que der e vier” (condição implícita), “se hoje o sol sair”, “se a chuva cair”, “se branco ele for” ¾ e outros que traduzem uma intenção ¾ “eu te prometo”, “até onde a gente chegar”, “comigo”. A condição, inserida no âmbito do subjuntivo e relacionada à terceira pessoa (você, sol, chuva, branco), constitui um plano de possibilidades. Já a intenção, relacionada a uma primeira pessoa (“eu”) que se manifesta no tempo presente, indica um plano de disponibilidade. A expressão “canto de amor”, ambígua por poder se referir a espaço físico ou a sentimento, define o ponto em que os dois planos se cruzam ou poderiam se cruzar, ou seja, “se você quiser”, indicando um movimento possível do “outro” em direção ao “eu” sugere a idéia de que o canto de amor solicita uma experiência compartilhada.
Uma leitura inicial relaciona as condições, como se viu, à terceira pessoa. Também o movimento de ir ao encontro do outro parece estar vinculado ao desejo, ou seja, à transformação de uma condição em uma ação (“se”/”vier”). Contudo, visto ser a condição implícita “pro que der e vier comigo” uma colocação ditada pelo sujeito da enunciação (o ser que assume a voz do poema é que propõe ao outro uma condição), pode-se também recolher o registro de uma ação pressuposta desse “eu”, que se revela disposto (intenção) a agir (“até onde a gente chegar”) desde que a condição se cumpra (“se você vier”). Logo, o “pro que der e vier” acaba se fazendo uma condição decisiva para a consolidação de uma relação amorosa que, nesse caso, deverá ser ditada pela total aceitação de quaisquer outras condições impostas pela exterioridade (“se hoje o sol sair”, “se a chuva cair”, “se branco ele for”), daí a decorrente inutilidade de qualquer “promessa”.
O título da canção (“Dia branco”) reúne os dois campos semânticos. “Dia” é o espaço concreto do presente (“hoje”) e “branco” o referente da potência significativa aberta de um “dia” não delimitado por um adjetivo específico como seria o caso de “ensolarado” ou “chuvoso”. O “dia branco”, por isso, ratifica a mensagem implícita de que o amor a ser vivido deve estar aberto e ser resistente a qualquer condição que se imponha, inclusive a condição de o dia não ser branco.
A canção propõe um “canto de amor” que só se constituirá como tal “se” o outro “vier pro que der e vier”. Intenção e condição, portanto, se integradas, concretizarão a experiência amorosa. No entanto, a permanência do “se” no campo das possibilidades, não define a inscrição desse amor no plano da realização, ficando a disponibilidade da voz que ama sob suspensão. A subjetividade, portanto, não se realiza a partir de si, mas se torna dependente do outro, cuja predisposição não aparece definida no poema, remetendo o sentido da relação sêmica condição/disposição para o âmbito da hipótese.
“Dia branco”, assim, pode ser lido como uma metáfora do amor incondicional, que, todavia (e paradoxalmente), se sustenta numa condição, o “pro que der e vier”. Como uma carta de intenções amorosas, o “dia branco” só possui um texto: o “pro que der vier” e uma assinatura: “comigo”. A partir daí, a predisposição para o amor se abre a qualquer possibilidade. Todavia, a presença marcante do “se” indica haver a necessidade de uma resposta. Qual virá? Ou a resposta é essa que nós damos quando ouvimos a canção e com ela nos emocionamos, assinando também essa “carta de intenções” e deixando ver que, no imaginário coletivo, o amor carrega consigo, de fato, um vivo desejo de cumplicidade e eternidade?
(Christina Ramalho),